Vermelho

És a irreal aparição de um mundo só meu

Sorriso que atinge

Questionador do destino

Dá compasso ao tempo

Do eu mais profundo que se esconde na rotina

Nem sei quanto sinto

E se sinto, é viva

Ou me desconectas

É a fuga que acalma?

Ou és esconderijo pra alma?

Não sei se sou ou se me sinto sendo.

 

A luz pálida da tarde invade a sala e nos filma na parede

Saiu com a garganta travada

Por ânsia ou medo do diferente

Levou na bolsa aquilo que queria ser

 

Nas tardes longas, nada queria

Recordava-se

Com medo profundo de não se tornar

Mesmo quando tudo parecia estar acontecendo

não se fez presente. Algum dia já foi?

Já sentiu grande? Infinito?

Uma vez assim, sempre na esquina, à margem

Procurando berros, encontrando ecos

Caminhou…

O álcool ainda presente confundindo os sentidos,

se calor, frio, passava

Via-se no mundo

 

Deitaram-se

A pele grudava e os corpos se entendiam

Na dança que mistura intenções. Cheiros.

Jogou sobre ela não só o corpo, mas toda expectativa de uma mente tortuosa

De uma vaidade visível disfarçada em insegurança

 

Cigarros

Fumando dez ao mesmo tempo: histeria, descontrole, buscando calma

 

Outra vez os corpos

Há quem passe pelo amor de olhos atentos

Quisera eu que fossem pra guardar momentos

Mas eram dois faróis, quase pálidos

Que de tanto estar no mundo não mais levitam. Estão. Sinto inveja de tanta presença.

No fim das contas somos todos pobres almas perdidas buscando aceitação

“Há pessoas que dizem:«Se dás muito colo a um bebê, ele habitua-se». Se é assim, se o deixares chorar, ele também se habituará. Mas as duas coisas são mentira. Esta teoria da habituação é absurda. Muita gente crê que as crianças se habituam a tudo por repetição. «Se a pões na tua cama: habitua-se e não vai querer sair da tua cama. Se lhe dás colo: habitua-se e vai querer sempre colo.» Então se lhe puseres a fralda, habitua-se vai querer sempre fralda. É absurdo. Ninguém usará fralda aos 18 anos por causa disso. Quando o teu filho é criança faz coisas de criança e quando for adulto fará coisas de adulto. Não muda porque o educaste, muda porque cresceu.”

Sobre o puerpério

Ninguém me disse como seria. E repeti isso algumas vezes colocando-me como vítima da circunstância em que me encontrava. Saindo da turbulência percebo que, em primeiro lugar, a vitimização era uma carência absoluta por carinho, porque de receptora absoluta, passei a provedora incondicional. Em segundo, ninguém me avisou porque traduzir em palavras é simplesmente impossível: é diferente pra cada uma.

Com absoluta segurança digo que o primeiro mês é quase absolutamente uma merda. Minha energia reduzida por toda modificação dentro de mim, pela ausência dos movimentos antes dentro, somada à ausência de sono, da insegurança latente, das dores pra amamentar.

Digo com segurança porque a relação de amor mais absoluta que existe, além de estar em processo de construção, é tão, mas tão grande, que demora a ser racionalizada.

Com quase três meses alcanço aquilo que, sim, disseram: passa. E olha que passa mesmo… e só melhora.

O cordão umbilical ainda está aqui, presente, não consigo ficar longe da pequena, e não me vejo longe, não quero. Amo-a tanto, que posso passar horas a observando, e agora quando dorme, quero acordá-la…

Um dia desses me dei conta do amor que sinto e chorei, chorei compulsivamente. É inexplicável! Minha vida não é mais minha e agora a dou à Helena com prazer, com um prazer absoluto, gostoso, cheio de dengo e carinho.

A amamentação, outrora dolorida, é o melhor de mim, me sinto na minha melhor condição. Os quilitchos vão embora (impossível dizer que não incomoda), o coração acalenta, a leoa está presente agora muito mais consciente, sabendo o que faz, entendendo definitivamente que tenho tudo que ela precisa.

É difícil incorporar a maternidade, mas acostuma… E as recompensas, que se resumem à sorrisos e olhares, ultrapassam a mera compensação.

Estou me reinventando como mulher. Não me imagino sem essa experiência, não me vejo serena assim há tempos.

Sou outra pessoa, que luta agora pra se encontrar dentro de si mesma. Num constante exercício de paciência, encontro o amor que transborda em mim, personificado em bochechinhas.

ps: andava com preguiça de escrever, mas hoje vi que o blog ultrapassou 1500 visualizações nos seus 6 meses de existência, por isso continuo. vai que ajuda alguém! obrigada 🙂

tempo, tempo, tempo…

Uma vez escrevi sobre isso, ou quase sobre, quando disse que o excesso de estímulo atrapalha o sonho. (nãosei/tocompreguiçade colar o link).

A maternidade me fez ver o tempo de outra forma: as 24h não são coerentes. A mudança na minha relação com o tempo é, acima de tudo, uma questão de deixar de viver a sua coerência.

Desse fuzuê, vem a diminuição de estímulos, ou a troca de alguns por outros. Vou da superficialidade à atenção –  imprescindível passo na tentativa de encontrar a mim mesma, de estar presente.

 La congruencia podríamos definirla como una pulcra sincronía entre lo que sabes, es decir aquello de lo que eres conciente, lo que predicas, y lo que haces. Esta sintonización de pensamientos, palabras y actos, ha sido enaltecida como fundamento en múltiples tradiciones místicas, modelos filosóficos, y postulados éticos. Incluso hay quienes afirman que esta virtud es la clave para la felicidad –Gandhi afirmaba que esta última “ocurre cuando lo que piensas, lo que dices, y lo que haces, se encuentran en completa armonía”. Sin embargo, créanme, se trata sin duda  del paso más complicado. ¿Cuántas veces hacemos algo que sabemos que no será benéfico para nosotros o nuestro entorno?

 Da minha parte, continuo permissiva com os meus defeitos – essa é a forma como vejo as incongruências-, permissiva no sentido de compassiva; mas compreendo cada vez mais o pensamento aristotélico de viver conforme a virtude, colocando-o como meta.

Esse processo talvez seja o porquê de estarmos aqui.

Das cores que vejo

IMG_5638

No sorriso tímido, no aperto de mão. Na calma que minha voz traz, na meditação interrompida pelo choro. Nas projeções, nas frustrações: no crescimento. Nos descobrir.

A quantidade de impressões me deixa inspirada, mas no meio do turbilhão fica difícil racionalizar e transformar em palavras.

Amo o amor que sinto. Permito-me viajar dentro da realidade repetitiva, seja no mar de Victor Hugo ou na pré história da Ayla, ou no olhar que vem da proximidade com o alimento que eu tenho pra lhe dar.

Estou cheia de dúvidas. E de certezas.

Relato do parto

No dia 09.06 fui à medica e já saí de lá animadíssima com a notícia que estava com 2 cm de dilatação.

Meio a ansiedade e alegria, arrumei um pouquinho mais as coisas que já estavam arrumadas há 3 meses.

Às 3:24 da manhã acordei com a primeira contração – realmente como me disseram, você sabe que é contração. Pra mim, a explico como uma cólica menstrual forte e uma facada na lombar; a lombar foi o que mais me incomodou.

Calculando o intervalo entre as contrações, concluí que estavam vindo de 10 em 10 minutos.

Levantei, tomei um banho gostoso, viemos pra sala e ficamos conversando entre as dores. Dor é uma coisa extremamente subjetiva, mas a minha experiência em relação às contrações é que são possíveis de suportar; entre elas é possível conversar, dar risada, pensar no que está acontecendo. Eu estava muito feliz, reclamava da dor, mas gargalhava de alegria – nos intervalos, claro.

Com o tempo as contrações passaram a acontecer de 5 em 5 minutos, e então, às 05:40 saímos para o hospital. Tive muito medo de ser alarme falso, mas chegando lá recebi a notícia que estava com 6 de dilatação e já seria internada.

Tive que ficar sozinha, o que odiei, numa sala preparatória onde encontrei 2 grávidas. Todas fariam cesárea. Eu fui a única que fez parto normal naquele dia.  

Todo meu aparato que levei pro hospital (abajour, vela, incenso, música, etc), pensando que estava indo pra um spa, ficaram de lado quando, num novo exame de toque às 7:30, minha bolsa estourou.

Aí foi tiro, porrada e bomba, uma contração atrás da outra, punk demais. Bibinho do meu lado me contagiando com a calma que só ele sabe ter nas situações em que ela é mais necessária. A dor é uma experiência muito desconcertante porque envolve o descontrole. É o estar sem controle de nada, estar sujeito às sensações, sem domínio nenhum. Coisa de bicho, de natureza que somos. 

8:30 – novo exame, 9 de dilatação… e às 9:26 chegou a Helena, com 3.280kg e 50 cm.

Um bichinho coberto de vernix branco. Minhas lembranças são o grito do Rico, que assim como eu não acreditava no que estava vendo. E o choro da moranguinho, que parou assim que cruzou os olhos com os meus.

Depois dos tramites rotineiros de hospital, a pequeninha voltou pra nós. Cabeluda, um mini toni raminhos.

Com o fim da parte expulsiva do parto, senti uma calma extraordinária, que acredito que se deva aos hormônios liberados, consequência do parto normal, sem intervenção.

 Hoje faz uma semana da chegada da pequena, que parece mesmo um moranguinho.

 Sobre a primeira semana dela, tenho que dizer que não foi/é/está sendo fácil. Estamos dois zumbis, tentando entender o ritmo dela, eu me esforçando pra amamentar, já que a dor é grande, e ainda estou tentando encontrar a maneira adequada de fazê-lo, e lutando contra a insegurança que bate: é um serzinho muito indefeso, delicado. É necessário ter paciência e manter a calma. Como venho escutando: melhora, é o começo. Tenho certeza que sim. Espero conseguir continuar dando o meu melhor.

 Passaria por tudo de novo.

E quando fico muito cansada, quando olho no relógio e são 7:30 e ela ainda não sossegou por mais de meia hora, vem pra mente a imagem dela no colo do papai, dançando pela sala ao som de Bob Marley, calminha, observando tudo.