Proliferação acéfala

Um dos motivos de ter criado esse espaço pra escrever foi o medo de brigar com todo mundo no facebook, já que hoje em dia publicar algo que te pareça merecedor de reflexão significa receber comentários inflamados dos defensores da moral e bom costume do país.

Estamos num limbo onde colocam a moralidade como valor máximo. Como otimista que sou, vejo esse limbo como processo de continuação da construção de uma identidade nacional, e acho extremamente válida a quebra com os valores antigos da malandragem nas instituições políticas; só sofro por estar vivendo numa época tão medíocre.

Em defesa da democracia – que a grande maioria nem entende o que é de verdade – e de uma suposta austeridade, passou a existir, principalmente após as eleições, uma dicotomia idiota. Na verdade ela não passou a existir, é só mais uma repetição. Se defendes uma política social, és tachado como socialista/comunista (sim, colocam tudo no mesmo saco); se defendes uma abordagem imparcial da mídia, deves mudar pra Venezuela; se propõe a integração com os países vizinhos para fortalecimento do bloco – cumprindo, aliás, o parágrafo único do art. 4º da Constituição -, és tachada de bolivarianista. Sabem quem foi Bolivar? Duvido.  Antes eu ficava braba, agora triste… Como pode haver tanta ignorância?

Colocando o pingo nos is e o chapéu na cabeça daqueles que o merecem, pode-se dizer tranquilamente: ambas as pontas da corda erram, e erram feio.

Uma por permitir que absurdos sejam propagados – e isso eu chamo de golpismo -, sem que seja prestada a defesa correspondente. Essa ponta, hoje no poder, enquanto se omite em silêncio, deixa que a desestruturação das instituições públicas tome forma e que se propaguem os absurdos que vemos hoje repetidos por aí.

Outra ponta peca por não entender que empreender essa batalha de desestruturalização prejudica à todos e a eles principalmente, porque, mesmo que vencidas as futuras eleições, terá na mão uma nação machucada. O descrédito total em instituições políticas historicamente já se revelou um espaço aberto à teorias absurdas. Ambos fortalecem, assim, uma direita agressiva, burra, tapada, doente, fundamentalista, ogra, malvada. E não é exagero. É maldade mesmo.

Conheço gente que desaprova o progressismo petista por conta de uma visão de mundo baseada no crescimento desenfreado da economia, e que discorda com classe, que utiliza argumentos à defesa daquilo que acredita. Raríssimos. O triste é ver a grande maioria repetindo, como papagaios, informações distorcidas, exalando um ódio digno de pena. Chamar a presidenta de vaca, burra, puta, idiota (só que vi não meu feed sem ter procurado) no dia da mulher enquanto parabenizam a própria mãe? O que é isso? F-a-l-t-a-de-e-d-u-c-a-ç-ã-o.

Contra fatos não há argumentos: não se pode utilizar o discurso anticomunista de 50 anos atrás e amoldá-lo a um governo que deu 55 bilhões de reais de lucro para os bancos e obteve 65 bilhões de dólares de investimento estrangeiro só no ano passado; nem que nomeia ministros como Katia Abreu e Joaquim Levy. Isso é falta de argumento. Ingenuidade não pode ser, só pode ser estupidez.

Reclamar privatização/impeachment/mortedapresidenta como se tem visto por aí pra mim é ignorância, ignorância histórica, ignorância absoluta. Coisa de gente tapada.

Em entrevista à Revista Forum o ex presidente do Uruguay, grande Mujica, ao ser perguntado se entende que há um avanço da direita e uma onda de movimentos golpistas na América do Sul; respondeu: O que há é uma nova tecnologia que está movendo a direita imperialista no mundo, com uma doutrina que busca, por métodos civis e não violentos, desestabilizar a situação dos governos. Isso tem se aplicado contra qualquer governo que se mostra medianamente progressista. Essa é uma nova forma de luta que a direita tem encontrado, na qual utiliza reivindicações próprias da esquerda tradicional e seus métodos para trocar o governo que não lhe agrada. É um tema difícil.

É difícil mesmo. É como falar da tempestade estando dentro dela, mais ainda pra quem tenta ser adepta ao velho ditado propagado por Paulinho da Viola: faça como o velho marinheiro, que durante o nevoeiro leva o barco devagar…

Não me tomem por ingênua, sei que o atual governo errou, e errou feio em inúmeras oportunidades, mas acredito que o maior erro é manter-se silente às acusações e ao desrespeito cotidiano exarado pelos papagaios. E mais, caindo na inevitável comparação com a oposição, apesar de todos os equívocos, prefiro indubitavelmente o atual governo à oposição, a qual em busca do retorno à presidência se utiliza de todos os meios para desestabilizar as instituições políticas, cuspir na ideia equivocada que tem de democracia, incentivar o golpismo achando ingenuamente que, caso ganhe em 2018, vai conseguir controlar a massa de acéfalos brutamontes que vem ajudando a proliferar.

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